|
Não dou muito crédito a previsões, pois o futuro permite hipóteses e fantasias, mas, em determinados setores, a posse de certos elementos pode autorizar previsões razoáveis. Quando o presidente da República decretou que a crise era do Bush e não chegaria ao Brasil e que, se chegasse, não passaria de marolinha, pouca gente deu crédito à sua assertiva, porque sobravam fatos notórios a recomendar maior prudência verbal. Aliás, até a sua pregação em favor das compras de Natal para garantir o emprego não foi seguida. O homem da classe média, guiado por seu instinto de sobrevivência, foi mais ajuizado e discreto. Já então não faltavam sinais de que viria a desdobrar-se, o desemprego, a queda das exportações, a redução dos preços externos, a cautela nos investimentos. Enquanto isso, 36,56% do todo produzido no país vinha sendo absorvido pelo fisco. E a taxa de juros pompeava irredutível e sobranceira. O Banco Central continuava impávido, em seu calvinismo exacerbado. Fazia lembrar o apelido que Roberto Campos deu para seu edifício-sede em Brasília, Idi Amin, grande, negro e vazio.
A verdade, porém, é que o ruído da "marolinha" se tornara audível e só o governo, a despeito dos incomparáveis meios de percepção e avaliação que possui, continuava a não ver ou a ocultar o que se tornara inegável. Enfim, a divulgação dos dados relativos ao último trimestre de 2008, outubro a dezembro, revelou a redução de 3,6% em relação ao trimestre anterior, julho a setembro, a indústria recuou 7,4%, os investimentos 9,8%, o consumo familiar, que responde por 60% do PIB, 2%. O Brasil aparecia em um dos últimos lugares entre 37 nações. Foi o pior ano desde 1966, segundo o IBGE. Já se admite que o crescimento do PIB, se houver em 2009, será mofino. Em São Paulo, ao longo de cinco meses, as demissões chegam a 236 mil. Parece ocioso salientar que o emagrecimento da arrecadação deverá prosseguir. Outro dia, estimava-se que no ano em curso ela poderia chegar a 20 bilhões, sem demora o cálculo foi elevado para 40 e em seguida a 60, senão mais. Não me deterei na especulação, mas é óbvio que à medida que a "marolinha" se expande a arrecadação se acanha. E o fenômeno, fora de dúvida, também repercute na receita dos Estados e municípios. De modo que é um fato de particular importância a ser considerado.
Mas há outro aspecto a ponderar. O presidente está tomado da neurose de gastar. Eu não ignoro que uma corrente de pensamento sustenta que a melhor maneira de enfrentar a crise é investir. No entanto, por Deus, há gastar e gastar, e é preciso distinguir uma de outra operação. Dou apenas um exemplo. Anuncia-se que serão criadas 35 embaixadas, de preferência no Caribe e na África. Ora, até onde sei, a iniciativa não é nem pode ser urgente, necessária ou de resultados imediatos. Iniciativas dessas podem ser úteis, mas não são redentoras, e podem ser adiadas sem danos.
Mas, voltando ao assunto principal, o estrondo foi tamanho, que o Banco Central, até ontem incomovível e impermeável às vozes nacionais, pediu água e às pressas reduziu o juro em 1,5 ponto percentual. Chegou tarde. Não satisfez. Muito pequeno diante do tamanho do desastre. Enfim, deu sinal de não ter morrido, como muitos supunham. Em período dramático, ficou à margem do tempo, "só passou pela vida, não viveu", para repetir o verso famoso de Francisco Octaviano. E com isso a sociedade perdeu e não foi pouco.
Ao que se diz, a única iniciativa bem-sucedida foi o embelezamento da presumida candidata a sucessora do presidente; longe de mim duvidar do bom sucesso obtido, embora insista em salientar que os seus méritos naturais nunca foram menosprezados; contudo, forçoso reconhecer, não se trata de concurso a miss Brasil, a ser disputado por garotas, mas de mostrar que a herdeira presuntiva está à altura dos desafios da presidência, e isto não se apura em uma revisão estética.
*Jurista, ministro aposentado do STF
|