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Franz Kafka escreveu A Metamorfose, narrando a história de Gregor Samsa que, ao acordar, viu-se transmutado em um inseto. A partir daí, a rejeição familiar a ele foi terrível. Hoje, o Rio Grande acorda mais disposto, metamorfoseado economicamente. Com razão. Investimento de US$ 1 bilhão da General Motors, com recursos próprios da empresa e financiamento do Banrisul a juros de mercado. Fala-se em 4,5 mil empregos diretos e indiretos, talvez mais. Isso tem um doce sabor especial, quando há a atomização e a fulanização da política regional. São críticas tão sistemáticas quanto improvadas e negadas à exaustão. Veio a humana reação da governadora. Mesmo com traço persecutório, até demorou. Ninguém resiste ao que julga seja uma grande injustiça sem que, em algum momento, perca o equilíbrio emocional. Equilíbrio, aliás, que foi tirado por aqueles que dela exigem uma postura fleumática e monárquica, ao melhor estilo londrino. Acontece que não somos ingleses e nem o regime é o monárquico. Somos latinos. E como somos. Gerar empregos e renda no Estado é o maior sonho kafkaniano transformista. Uma nova fábrica atraindo outros sistemistas e prevendo além de 100 mil veículos por ano. Em meio ao pessimismo que invade a mente e os corações brasileiros, é ótimo ter um momento de alegria. Fábrica, empregos, renda, consumo, impostos, progresso. Ah, mas os automóveis poluem. Não tanto quando estão usando cada vez mais álcool e o biocombustível nos caminhões e ônibus. Biocombustível que terá forte expansão na produção gaúcha.
Parece que o ódio não será mais a herança política, o que se tornava a marca registrada de alguns seres públicos locais. A arrecadação caiu na União, no Estado e em Porto Alegre. Era mais do que previsível. Porém isso é o reflexo da desaceleração econômico-financeira do primeiro trimestre e que se estendeu até maio. De lá até esta data os indicadores têm sido melhores. A poderosa GM recém saiu de uma antes impensável concordata nos Estados Unidos (EUA). Logo ela, símbolo da indústria automobilística mundial. A importância da nova fábrica e da riqueza que ela vai gerar provêm da capacidade dos seus executivos e do governo estadual em a utilizarem para o bem, não para o desperdício. A governadora, em Brasília como no Piratini, vive seu momento de reflexão autista. Saboreia o doce sabor de uma conquista, uma vitória. Justamente quando tudo levava a crer que a indústria de automóveis tão cedo não se levantaria do tablado onde caíra nocauteada pela crise, exceção do Brasil, aliás. Mulher, Yeda Crusius vive parêntese de alegria em meio às dificuldades. Sendo sábia, como a antiga Pitonisa, duvida, estremece e sente a adversidade quando consulta os seus oráculos sobre a razão de tantos ataques. É inflexível, autoritária e pouco ouve os que a cercam, falam alguns. Talvez, talvez. Mas ela que aproveite o momento e baixe a guarda, pelo menos hoje, quando ler e ouvir sobre a repercussão desse investimento. Afinal, como a chuva amolece a terra, o pranto da mulher abranda os corações mais empedernidos, mesmo de adversários políticos. Ninguém se conhece tão bem a não ser que saiba muito da compostura das outras pessoas, amigas ou não. O maior trabalho de certos governantes, em determinadas circunstâncias, é tolerar os importunos. Ontem, certamente, o Estado não teve o seu último pôr-do-sol alegre. As finanças iniciarão uma lenta, gradual mas irreversível recuperação. No Brasil, no Estado e em Porto Alegre, pois não há bem que sempre dure e nem mal que nunca acabe.
Jornal do Comércio RS - 16 de julho de 2009
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