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O 9º Batalhão da Brigada Militar tem pelo menos dois sargentos com
pouco serviço. Na última segunda, às 11h30min, o repórter do Canal
Rural, da RBS, Gustavo Bonato, 27 anos, fez o sinal para atravessar a
rua na faixa de segurança, no centro de Porto Alegre. Os carros
pararam, menos a viatura nº 6.427, onde estavam os sargentos Alex e
Nilo, que se deslocava em baixa velocidade, sirene e giroflex
desativados. Obrigado a parar no meio da faixa de segurança, Gustavo
disse ao motorista: “Policial deve dar o exemplo e parar na faixa”. A
viatura, então, parou em fila dupla e Gustavo foi abordado: “O que tu
disse (sic), magrão?”. “Disse que os policiais devem dar o exemplo”,
respondeu o repórter.
“Palhaço... viaturas têm preferência em
atendimento à ocorrência”. “Se vocês estão atendendo a uma ocorrência,
então estão perdendo tempo”, disse Gustavo. “Sim, estou perdendo tempo
com um palhaço”, disse o sargento. Aí Gustavo foi “convidado” a entrar
na viatura para ir ao batalhão. No deslocamento, ao verem que a
identidade do repórter era do Paraná, um dos policiais disse: “Esse
deve ser um meliante do PR que veio aqui chineliá (sic) com a gente”.
No batalhão, Gustavo foi revistado, mãos na parede etc. Meia hora
depois, estava “liberado”.
Gustavo
morou na Suíça, um lugar onde pedestres têm preferência e onde
policiais prestam contas do que fazem. Nas horas vagas, os policiais
suíços prendem cineastas acusados de estupro ou desmontam versões
fantasiosas como a daquela brasileira que se autoflagelou. Na maior
parte do tempo, como ocorre com as melhores polícias do mundo, atendem
às demandas do público com respeito e extremo zelo. O fazem não apenas
porque são mais educados, bem pagos e mais bem formados, mas porque
sabem que uma polícia que não for admirada pela cidadania é uma
instituição imprestável. A arma mais importante de qualquer polícia é a
informação, e o povo é a fonte onde se deve buscá-la. Se a população
admira sua polícia, presta informações. Quando teme sua polícia e
desconfia dela, se cala. Em 1829, Sir Robert Peel, o fundador da
polícia londrina, formulou os nove princípios que, desde então,
orientam o policiamento britânico. O mais conhecido deles assinala: “A
polícia deve manter o relacionamento com o público que assegure
realidade à histórica tradição pela qual a polícia é o público e o
público é a polícia”. Na Inglaterra, certa feita, minha filha mais
velha se envolveu em um acidente com sua bicicleta. O erro foi dela e o
motorista se comportou corretamente, chamando a ambulância. No fim das
contas, sobraram apenas alguns arranhões e o susto. No dia seguinte,
dois policiais estiveram em minha casa. Abri a porta, apreensivo,
imaginando algum tipo de problema. Eles haviam sido informados do
acidente e perguntaram por minha filha. “Ela está bem?”. “Sim,
respondi, está tudo bem”. “Que bom”, disseram, “somos os policiais
deste bairro; se precisar, o senhor pode nos chamar por este número”,
me passaram o celular e me desejaram bom dia. A autoridade das polícias
britânicas se formou assim e assim é mantida. Policiais são servidores
do povo. Informam a população, pedem desculpas quando erram, pedem “por
favor”, auxiliam as vítimas. Uma polícia incapaz disto é, na melhor das
hipóteses, um desperdício e, na pior, uma ameaça. O que ocorreu com
Gustavo Bonato não é um caso isolado, é a regra. Se fosse em uma vila,
teria sido muito pior. E se calarmos diante de coisas assim, então tudo
será sempre pior.
*Jornalista e ex-deputado federal pelo PT
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